Imprensa – Do seio da ama-de-leite moderna até a boca de um bebê

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AMAMENTAÇÃO NA IMPRENSA

Do seio da ama-de-leite moderna até a boca de um bebê necessitado, o alimento perfeito salva vidas e percorre o comovente caminho da solidariedade

Revista Crescer (06/04).

A publicitária e artesã Giovana Koshiyama, 30 anos, é um mulherão. Tem seios fartos, ossos largos. Comunicativa, distribui sorrisos por onde passa. A dona de casa Verônica Cavenagui Campos, 19 anos, tem o estilo oposto. É miúda, delicada e econômica nas palavras. Por força da solidariedade e de um capricho do destino, os filhos dessas duas mulheres, de modos tão diferentes, acabaram unidos pelos laços da fraternidade: Marcos Vinícius e Robson se tornaram irmãos de leite.

Giovana deu à luz Marcos Vinícius em novembro do ano passado, em São Paulo. O parto foi uma cesariana, na 40a semana de gestação. Com muito leite, o desconforto a obrigava a esvaziar os seios depois de amamentar. ‘Eu jogava o leite pelo ralo e me sentia muito mal’, lembra a artesã, que já pensara sobre a doação durante a gravidez. ‘Eu dizia a mim mesma que, se pudesse, eu doaria’, conta. Quando o filho fez 1 mês, ela decidiu não desperdiçar nem uma gota a mais do alimento tão importante.

Prematuro
Robson, filho de Verônica, nasceu no dia 9 de maio, prematuramente. Ela estava na 32a semana de gestação e teve pré-eclâmpsia. O frágil menino, de 1,5 quilo, sobreviveu graças ao fornecimento do banco de leite da Maternidade Estadual Leonor Mendes de Barros, em São Paulo. Com certeza, o garoto estaria sendo nutrido também se recebesse o alimento artificial. ‘Mas só o leite humano protege, com seus anticorpos, e reduz o risco de alergia alimentar, que seria muito delicado para um prematuro’, diz Joana Kuzuhara, supervisora-geral do banco de leite da maternidade, um dos 46 bancos do estado, que receberam no ano passado 28 mil litros, capazes de aleitar 27 mil prematuros. De fato, uma recente pesquisa americana com bebês prematuros mostra que 39% dos que sofreram infecções tinham recebido menos leite humano que os demais.

O Brasil tem a maior rede de bancos de leite humano do mundo’, diz Sonia Salviano, coordenadora da Política Nacional de Aleitamento Materno, do Ministério da Saúde. A proibição da distribuição de leite humano não-tratado, em 1985, acabou com a prática da ama-de-leite, mas não com a doação. O sistema de coleta, iniciado em 1943, soma 171 bancos instalados em hospitais públicos (mais 15 devem ser abertos este ano). Em 2003, eles armazenaram cerca de 70 mil litros de leite de 66 mil doadoras, que alimentaram 101 mil crianças. ‘Praticamente todas as mães sadias que amamentam podem doar. Do terceiro ao quinto dia do pós-parto, o peito ingurgita ou ‘empedra’, como se costuma dizer. Essa é a hora de iniciar a doação’, explica Sonia. Nessa altura, as mulheres devem esvaziar as mamas, sob pena de ficarem com os seios doloridos ou sofrerem até inflamações.

Caminho do leite
Para se tornar uma moderna ama-de-leite, Giovana procurou um serviço de informação. Indicaram-lhe o Hospital e Maternidade Estadual Leonor Mendes de Barros, na Zona Leste de São Paulo, onde mora. Constatado que preenchia todos os requisitos como doadora (veja boxe), fez-se a análise do grau de acidez do leite, que determina ou não seu aproveitamento. A artesã aguardou o resultado do exame com ansiedade e ficou feliz com a ‘aprovação’. No início o marido, o administrador de empresas Marcos, estranhou, mas acabou compreendendo seu empenho e passou a apoiá-la.

Diariamente, pela manhã, depois de amamentar o filho, Giovana massageia a mama por 15 minutos e retira, sem bomba, cerca de 30 mililitros de leite do seio. O leite é depositado num vidro esterilizado e guardado na geladeira. A rotina se repete à noitinha, depois de um dia de trabalho dividido entre os cuidados com Marcos Vinícius e a confecção de enxovais de bebê, no apartamento de dois quartos na Vila Carrão – bairro paulistano de classe média. O filho, já satisfeito, costuma dormir quando a mãe faz a ordenha. ‘Se está acordado, falo para ele esperar quietinho, que a mamãe está cuidando dos irmãozinhos de leite’, diz.

A enfermeira Josefina chega para a coleta Ela costuma entrar na casa e conversar uns minutos com Giovana. Guarda o pote em uma geladeira portátil, que precisa ser mantida à temperatura máxima de 10ºC Coloca a geladeira dentro do carro e prossegue o itinerário, que geralmente inclui mais duas ou três visitas

Olhos nos olhos
Normalmente, as mães dos prematuros nunca chegam a conhecer as doadoras. As voluntárias, por sua vez, também não sabem para quem vai o leite extra que oferecem. Os bancos, porém, costumam convidar as doadoras para visitar o berçário. ‘Quando a voluntária percebe a fragilidade dos prematuros e a importância do leite humano para eles, fica mais motivada’, conta Joana. Depois de quatro meses como doadora, Giovana atendeu a um desses convites da Maternidade Leonor Mendes de Barros. E, lá, no berçário, conheceu Verônica, a mãe do pequeno Robson. Foi um encontro marcado pela emoção. No momento mais comovente, a doadora observou o garotinho tomando, em um copinho, o leite que ela havia retirado em casa, na semana anterior. Giovana não conteve o choro e pediu para segurá-lo nos braços. Verônica prontamente concordou. Agradecida, a jovem mãe não vê a hora de poder manter o pequeno Robson com o próprio leite. ‘Eu gostaria de, um dia, retribuir ajudando outros prematuros’, diz Verônica. Tomara, pois assim ela vai estar multiplicando também a solidária fraternidade do leite.

Para doar
A doadora precisa amamentar o próprio filho e ser saudável: não pode beber, fumar ou tomar remédios. Deve seguir à risca o ritual para a retirada do leite. Até 1985, quando foi normatizada a doação no país, as voluntárias eram recompensadas com roupas e alimentos, mas isso foi proibido e hoje não há remuneração. Na Europa e nos Estados Unidos, o leite chega a ser vendido por US$ 30 a US$ 50 o litro. O telefone 0800-268877 informa sobre os bancos de leite de todo o país. Este ano, no dia 1º de outubro, será comemorado pela primeira vez o Dia Nacional de Doação do Leite Humano.

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